Coronavírus: Medos e ansiedades

Coronavírus: Medos e ansiedades

Por: Marcia Belmiro | Carreira | 06 de junho de 2020

A pandemia de coronavírus nem acabou e já pode-se perceber suas consequências nas crianças, que apresentam níveis de medo e ansiedade comparáveis aos de um trauma. O mesmo acontece com os adultos, que como agravante têm uma noção mais clara da realidade e das questões associadas direta e indiretamente a toda a situação mundial relacionada ao vírus.

Neste texto, vamos abordar o tema “o professor consigo mesmo”: seus sentimentos, pensamentos e como elaborá-los de uma maneira saudável e empática com si próprio, para a partir daí poder olhar com empatia para seus alunos e ajudá-los a lidar com a crise pela qual estamos todos passando.

No artigo “Desastres naturais: perdas e reações psicológicas de vítimas de enchente em Teresina-PI”, Erika Ravena Batista Gomes e Ana Célia Sousa Cavalcante analisam as reações de um grupo de pessoas que passaram por um desastre natural em 2009: “Os participantes [do estudo] vivenciam a enchente como algo desagradável em virtude das perdas sofridas, principalmente as de caráter material, que podem ser mensuradas por eles. Expressam tal percepção de maneira velada, ao dizer que a enchente ‘não foi bom’, evitando dizer que foi algo ‘ruim’, demonstrando passividade frente às dificuldades a serem enfrentadas, fruto de uma construção social compartilhada pelos membros comunitários”.


A importância de se expressar

Sob a ótica das pesquisadoras, “o não falar ou falar pouco do que foi vivenciado também é um dado a ser observado, considerando que a fala nos remete ao momento do fato, que causa uma angústia que essas pessoas não querem sentir ou demonstrar que sentem. Essa é uma preocupação de Kovács (1992), que acredita que se deve permitir a expressão dos sentimentos vivenciados pela pessoa enlutada, pois ver a perda como uma fatalidade, ocultar sentimentos ou eliminar a dor podem ser formas de negar os sentimentos para evitar o sofrimento”.

As estudiosas se referem a Fukumitso (2004), que “acredita que os seres humanos têm experiências singulares em situações vivenciadas, e é através dessa experiência que aprendemos o nosso próprio significado, atribuindo-o para nós mesmos. Além de atribuirmos um significado para a forma como as coisas se manifestam, atribuímos também para a relação que construímos com as situações. Assim, o conceito de perda também significa partes da identidade e da maneira de ser-no-mundo”.

Risco e vulnerabilidade

No momento atual, todas as pessoas, independentemente de sexo ou estrato social, sentem-se vulneráveis e em risco. Gomes e Cavalcante definem risco como: “Resultado da relação perigo-vulnerabilidade, sendo cada um deles proveniente de outras equações que incluem as várias dimensões envolvidas na geração, enfrentamento e impacto do fenômeno (Marandola Jr. & Hogan, 2005, pp. 46-47). Bindé e Carneiro (2001) percebem o risco como um constructo social, que é configurado pelas características do sistema emotivo-cognitivo do indivíduo e pela sua realidade social, inclusive os valores específicos e interesses sociais vigentes.”

Já a vulnerabilidade é definida pela pesquisadora Brené Brown (autora de A coragem de ser imperfeito) como “experimentar incertezas, riscos e se expor emocionalmente”. “Ter consciência desses dois aspectos – o risco e a vulnerabilidade – e se permitir senti-los é uma atitude não de autocomiseração, mas de autoacolhimento e reconhecimento de nossa própria suscetibilidade. Perceber como esses estados nos afetam e modificam nossa forma de enxergar as pessoas e as situações, em vez de nos levar ao fracasso podem, ao contrário, nos deixar mais firmes, aos nossos próprios olhos e também aos olhos dos outros. E é dessa forma, com uma atitude de autoempatia, que os professores podem cuidar de si agora para se prepararem para lidar com os alunos no pós-pandemia”, analisa Marcia Belmiro.

Transformando dor em potência

No artigo “Psicologia nas emergências: uma nova prática a ser discutida”, Mariana Esteves Paranhos e Blanca Susana Guevara Werlang afirmam: “A psicologia positiva aliada à compreensão de crise traz então a possibilidade de pensar que, mesmo diante de eventos trágicos, que levam a uma grande tristeza e dor, sempre há a possibilidade de estes serem também geradores de perspectiva e esperança.”

Isso se dá pois, ao encarar verdadeiramente a situação de crise, é possível transformá-la posteriormente, por meio da resiliência, em um ponto de mudança, de modo que a crise (neste caso, a pandemia de coronavírus) contribua para a manifestação do potencial positivo das pessoas. A esse respeito, Marcia Belmiro parafraseia Paranhos e Werlang ao propor a seguinte reflexão: “A principal atenção humana que a educação pode oferecer é o conhecimento do potencial humano.”

Gostou deste artigo? Confira o primeiro texto desta série aqui: https://institutoinfantojuvenil.com.br/coronavirus-medos-e-ansiedades/

E continue acompanhando o blog do ICIJ para saber mais sobre medos e ansiedades relacionados à pandemia de coronavírus.

Fontes:

Desastres naturais: perdas e reações psicológicas de vítimas de enchente em Teresina-PI”. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822012000300025

Psicologia nas emergências: uma nova prática a ser discutida”. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932015000200557

Matérias Relacionadas

A saúde mental do professor
Como o Coaching Pode Melhorar os Estudos das Crianças e Adolescentes
A criança de 3 anos, ou threenager