Meninas de 6 anos se acham menos talentosas que meninos

Meninas de 6 anos se acham menos talentosas que meninos

Por: Marcia Belmiro | Crianças | 13 de novembro de 2020

Nos dias atuais, as mulheres ainda são minoria nas ciências exatas, em cargos de diretoria nas grandes empresas, em prêmios como Nobel e Oscar e, em qualquer área, ainda recebem salários em média 25% inferiores aos dos homens na mesma função e com qualificação semelhante.

A ciência já comprovou que não há uma diferença entre as capacidades de homens e mulheres, de fato o que as impede são os padrões de desigualdade tradicionalmente arraigados na sociedade como um todo.

Mas em que fase do desenvolvimento esses padrões começam a ser inculcados nas pessoas? É isso que a pesquisa “Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests” (em português, “Estereótipos de gênero sobre a capacidade intelectual surgem cedo e influenciam os interesses das crianças”), de Bian et al., descobriu.

O estudo, que foi divulgado pela revista Science em 2017, afirma que, aos 6 anos de idade, as meninas já acreditam ser menos inteligentes que os meninos. A pesquisa contou com 400 crianças de 5 a 7 anos dos Estados Unidos. A elas foram propostas as seguintes tarefas:

Na tarefa 1, um adulto contava uma breve história sobre uma pessoa “muito, muito inteligente”. Nenhuma sugestão quanto ao gênero do protagonista foi dada. Foi pedido às crianças que adivinhassem qual dos quatro adultos desconhecidos (dois homens e duas mulheres) foi o protagonista da história.

Na tarefa 2, as crianças viram vários pares de adultos (do mesmo sexo ou de sexos diferentes) e tinham que adivinhar qual adulto em cada par era “realmente esperto”. Na tarefa 3, as crianças tinham que adivinhar quais objetos (por exemplo, um martelo) ou atributos (por exemplo, inteligente) correspondiam melhor a imagens de desconhecidos (homens e mulheres).

Aos 5 anos, meninos e meninas associavam brilhantismo a seu próprio gênero. Já as meninas de 6 e 7 anos escolhiam significativamente mais homens (que continuaram a ser o mais escolhidos pelos meninos).

Depois, as crianças foram apresentadas a dois jogos, um que seria para “crianças muito, muito inteligentes” e o outro para “crianças muito, muito esforçadas”. Como resultado, as meninas demonstravam menos interesse do que os meninos no jogo para “crianças inteligentes”.

Os responsáveis pelo estudo sugerem que a noção de brilhantismo relacionada ao gênero é introjetada desde cedo nas crianças, e que isso tem efeito imediato nos interesses dos indivíduos, podendo influenciá-los ao longo de toda a vida.

É certo que o modelo aceito socialmente tem alto nível de pregnância nas pessoas, motivando sua forma de pensar e agir. Acredito que para mudar esse padrão é preciso alterar os estímulos dados às crianças desde a primeira infância, de modo que todas, independentemente do gênero, sintam confiança nas próprias capacidades”, analisa Marcia Belmiro.

Fonte:

Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests”. Disponível em: https://science.sciencemag.org/content/355/6323/389/tab-pdf

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