Alfabetização na pré-escola é válido?

Alfabetização na pré-escola é válido?

Por: Marcia Belmiro | Crianças | 12 de março de 2020

Cada vez mais a alfabetização acontece já na educação infantil, muitas vezes com direito a cerimônia de formatura, orador e beca. No entanto, essa prática não é bem-vista por alguns estudiosos do assunto, por entenderem-na como precoce e de pouca utilidade para o desenvolvimento das crianças.

As famílias e escolas agem dessa forma por entender que estão fazendo o melhor para as crianças. No entanto, quando essa necessidade parte dos adultos, vale uma reflexão a respeito.

Em nossa sociedade, há um imperativo de produzir a todo tempo, como se o ócio fosse sinal de preguiça. E essa mentalidade já alcança as crianças, mas a que preço? E o que significa o conceito de sucesso na infância, afinal? Estamos diante de um sucesso da criança de fato ou uma espécie de diploma de proficiência de seus pais, capazes de criar um gênio brilhante?”, provoca Marcia Belmiro.


Alfabetização na BNCC

No texto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o tema alfabetização só é tratado no escopo do ensino fundamental. O mais próximo que se chega do assunto são algumas poucas referências a escrita espontânea – ou seja, sem livro, apostila, tampouco dever de casa.

A BNCC define que os eixos estruturantes dessa etapa da educação são “as interações e a brincadeira, assegurando-lhes [às crianças] os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se”, aliando sempre a liberdade infantil a práticas pedagógicas com intencionalidade educativa.


Aprendizado sem imposição

Lev Vygotsky, estudioso da infância, fala da importância de a escrita não ser imposta. No artigo “Alfabetizar ou não na educação infantil? Possibilidades e críticas acerca desse ensino nessa etapa da educação básica”, Santos cita Vygotsky (2007) ao afirmar que “desenhar e brincar deveriam ser estágios preparatórios ao desenvolvimento da língua escrita das crianças. Os educadores devem organizar todas essas ações e todo o complexo de transição de um tipo de linguagem escrita para outro”.

O processo de alfabetização vem sendo entendido pelos estudiosos do assunto como algo muito mais amplo que o simples binômio ler-escrever palavras; engloba toda a experiência de linguagem (em forma de sons e imagens), de ler o mundo numa acepção mais ampla, com os cinco sentidos.

Quando a criança precisa ficar sentada durante horas, provavelmente vai faltar tempo para o brincar livre e outras atividades fundamentais ao processo de aprendizado global. Essas habilidades – afetividade, sociabilidade, lateralidade, entre outras – quando não são trabalhadas na infância, depois não se desenvolvem da mesma forma.

O que diz a ciência

De modo geral, na primeira infância o foco principal deve estar no movimento corporal – do mais amplo, iniciando com agarrar coisas, ao mais restrito, com o movimento de pinça, que será importante para a criança aprender a segurar o lápis. Esse aprendizado, não por coincidência, torna-se maduro por volta dos 6 anos de idade.

Claro que existem crianças que aprendem a ler e escrever espontaneamente aos 4 anos, mas são muito poucas as que desenvolvem essas habilidades tão cedo. Quando essa é uma demanda da criança, não há problema em permitir a alfabetização. O problema surge quando se começa a normalizar o que deveria ser a exceção”, analisa Marcia Belmiro.

Fontes:

Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=79601-anexo-texto-bncc-reexportado-pdf-2&category_slug=dezembro-2017-pdf&Itemid=30192

Alfabetizar ou não na educação infantil? Possibilidades e críticas acerca desse ensino nessa etapa da educação básica”. Disponível em: http://sites.pucgoias.edu.br/pos-graduacao/mestrado-doutorado-educacao/wp-content/uploads/sites/61/2018/05/La%C3%ADs-Paula-Freitas-dos-Santos.pdf

                      

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