Crianças e a síndrome do imperador

Crianças e a síndrome do imperador

Por: Marcia Belmiro | Crianças | 05 de março de 2020

Ele tem tudo o que deseja, a tempo e a hora. Em casa, providenciam suas comidas preferidas, que são servidas com ornamentos e motivos delicados. Sua diversão é planejada em detalhes, para proporcionar a ele a maior satisfação possível. Tudo seu é especial, exclusivo, único, em geral marcado com seu nome, caso algum desavisado se atreva. Não, não estamos descrevendo a rotina de um membro da família real britânica, nem de uma grande celebridade. É assim que vivem algumas crianças na sociedade atual.

Expectativa x realidade

Os pais, com as melhores intenções, se esforçam para realizar os desejos do filho, evitam a todo custo suas frustrações e chegam a se anular, deixando de lado as próprias necessidades, pois acreditam que assim vão garantir o bem-estar do pequeno. Mas, infelizmente, muitas vezes não percebem que estão criando um “reizinho da casa”, um “poderoso chefinho”.

Esse tipo de atitude já vem sendo chamado de “síndrome do imperador”. Que, em vez de fortalecer a autoestima do filho, como desejam os pais, pode gerar o efeito contrário. Quando as preferências e os desejos da criança se tornam mais importantes que os dos demais membros da família – e, em casos extremos, ela passa a definir o cardápio, para onde serão os passeios e que programa de TV todos devem assistir –, essa criança sai do papel de ser cuidada e protegida, ganha responsabilidades para as quais ainda não tem preparo. Dessa forma, se torna uma espécie de administradora da casa, o que a deixa sobrecarregada mentalmente e psiquicamente.

De um extremo a outro

A “síndrome do imperador” comumente ocorre quando os pais tiveram uma educação muito rígida na infância, o que lhes trouxe dor e traumas. Ao se afastar totalmente do que receberam dos próprios pais, têm o objetivo de não cometer os mesmos erros. No entanto, a tão criticada hierarquia não desaparece, mas é invertida: em vez de pai e mãe mandarem no filho, é este que se torna o “pequeno ditador” da família.

Com a falta de limites e de frustrações, já que todos os seus desejos são atendidos – inclusive aqueles que prejudicam a criança –, o desenvolvimento infantil é grandemente prejudicado. Externamente, o que se vê são atitudes de arrogância, rebeldia e prepotência. Mas, em seu íntimo, o pequeno se sente perdido, sem parâmetros que ainda não é capaz de definir, e inevitavelmente sofre com isso.

Reverter esse quadro não está nas mãos da criança – até porque lhe falta desenvolvimento cognitivo e emocional para isso –, mas dos adultos cuidadores. Quando os pais recuperam a própria voz e assumem seu papel de autoridade (não de autoritarismo, o que é bem diferente) na família, por meio do diálogo verdadeiro, há um resgate da relação de afeto e se torna mais fácil reencontrar o caminho do meio – de aprendizado mútuo e respeito a si e aos demais.

                      

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