É possível encontrar o meio-termo entre a permissividade e o autoritarismo?

É possível encontrar o meio-termo entre a permissividade e o autoritarismo?

Por: Marcia Belmiro | Crianças | 15 de agosto de 2019

A importância de dar limites claros e gentis à criança

Recebo muitas mensagens de pessoas que acompanham meu trabalho dizendo que se sentem numa eterna “corda bamba” entre a condescendência excessiva e a intransigência total na relação com os filhos. Em primeiro lugar, é importante esclarecer que a autoridade da família é função do adulto. Essa autoridade, no entanto, não é arbitrária nem significa que deva haver uma relação de imposição dos pais para com os filhos. Quer dizer apenas que o adulto tem prontidão neurofisiológica, devido ao pleno desenvolvimento do neocórtex, para definir os princípios e valores a serem seguidos pelo sistema familiar e, assim, torna-se capaz de expor os limites nas relações familiares e nas relações dos membros desse sistema com o ambiente externo. A criança é convidada a se envolver no processo, na medida de sua prontidão psicológica e maturação cognitiva.

A partir daí, proponho alguns balizadores (não são dicas, tampouco regras), e espero que auxiliem você a encontrar seu estilo próprio de educar com respeito, propiciando entendimento e conexão em seu ambiente familiar:


1º Defina combinados de comum acordo.

– Confie em seu filho; apesar da pouca idade, acredite, ele é capaz de dar sugestões viáveis para as questões do dia a dia.

– Exponha a situação difícil que esteja acontecendo (ex.: Na hora do banho ele continua brincando e dizendo que já vai).

– Faça perguntas sobre COMO isso poderá ser resolvido da próxima vez.

– Aguarde as respostas da criança (repare que não está em questão tomar ou não tomar banho, mas COMO será esse banho – daqui a 10 minutos; com os bonecos; depois que terminar a partida do jogo).

– Nesse brainstorm, anote todas as ideias que surgirem.

– Definam o que realmente será feito, então.

– Anote os combinados que foram decididos em conjunto.

Importante: Quando a criança participa da solução, sua adesão é muito maior.

– Os combinados estabelecidos na família devem ser seguidos por todos. Ou seja, não adianta dizer que é preciso cuidar da casa quando os adultos deixam tudo bagunçado. A criança não aprende pelas palavras, mas pelo exemplo.

2º O limite, quando dado, teve ter fundamento e lógica.

– Vale a pena pensar: “Estou dizendo “não” porque isso realmente importa ou por outro motivo qualquer?” O não desnecessário fica descaracterizado, sem sentido, o que confunde a criança.

– Se há clareza sobre a motivação do não, ele deve ser mantido, independentemente da insistência da criança.

3º Depois de uma situação de conflito ocasionada por um limite necessário, é preciso voltar ao assunto com a criança.

– Como diz a educadora parental Elisama Santos em seu livro Educação não violenta, “não se ensina a nadar quem está se afogando”, isto é, só quando o momento de estresse já passou é possível para a criança entender verdadeiramente as causas do que aconteceu.

4º Não é porque a criança compreendeu o limite dado que aquela situação nunca mais vai acontecer.

– Pelo contrário, o mais provável é que seja necessário repetir muitas vezes os mesmos combinados feitos anteriormente. Isso não quer dizer que a criança esteja querendo irritar os pais ou testá-los, apenas que a criança ainda não possui critérios claros e definidos devido ao neocórtex que ainda está em processo de desenvolvimento, o que de certa forma interfere na consolidação da memória.

– “Ele [o neocórtex] é uma das últimas partes do cérebro a se desenvolver, e permanece em constante construção durante os primeiros anos da vida”, diz o pediatra e psiquiatra Daniel Siegel em The Whole Brain Child.

– Para ajudar a criança a lembrar dos combinados, escolha uma palavra-chave (como “sapatos” quando for preciso botar os calçados e sair, “dentes” para a hora de escová-los etc.).

5º O limite é importante, mas pode ser dado de maneira lúdica.

– Elisama Santos analisa: “Filhos são um chamado para sermos mais divertidos, criativos e alegres.” Como exemplo, a voz nervosa e irritada poderia ser substituída por uma voz imitando robô – ou dinossauro, ou personagem de desenho animado, o que for do interesse da criança.

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